

Ter acesso a todos os tratamentos, produtos e recursos não significa, necessariamente, ter a pele que a gente merece.
Amanda Seyfried nos lembrou disso nos últimos dias,e a dermatologia clínica confirma diariamente no consultório: muitas vezes, o problema não é a falta de tratamento, mas o excesso.
Um exemplo clássico é a dermatite periorificial, uma doença inflamatória comum, porém ainda pouco compreendida, justamente porque desafia a lógica tradicional do “quanto mais tratar, melhor”.
Assista aqui o vídeo que publiquei no Instagram, sobre o assunto:
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A dermatite periorificial é uma condição inflamatória que costuma acometer as regiões ao redor dos orifícios do rosto: ao redor da boca, do nariz, dos olhos e nos sulcos nasolabiais.
Ela se manifesta, geralmente, como pequenas pápulas (bolinhas), acompanhadas de ardência, ressecamento e, em alguns casos, descamação. Um dos seus sinais mais característicos é a resposta paradoxal ao tratamento: a pele piora com o que é aplicado nela.
Esse comportamento confunde pacientes e, muitas vezes, profissionais, levando a ciclos repetidos de tentativas frustradas de tratamento.
O centro do controle da dermatite periorificial não está em adicionar mais ativos à rotina, mas em restaurar e respeitar a barreira cutânea. É exatamente aqui que muitos tratamentos falham.
Não se trata de uma pele que precisa de mais estímulos, mais cosméticos ou mais intervenções. Trata-se de uma pele que precisa ser compreendida, protegida e tratada de forma enxuta, criteriosa e individualizada.
Quanto mais agredida essa barreira, maior a inflamação e maior a resistência da pele aos tratamentos convencionais.
Diferente do que se costuma divulgar, o tratamento da dermatite periorificial muitas vezes não começa com medicamentos tópicos.
Na maioria dos casos, o primeiro passo é identificar e remover os gatilhos que estão perpetuando o quadro.
Entre os principais gatilhos estão:
Reduzir os excessos e eliminar esses fatores pode, por si só, ser suficiente para controlar a doença.
Em alguns casos, após o controle dos gatilhos, entram os tratamentos medicamentosos.
Pessoalmente, prefiro combinações manipuladas, pensadas caso a caso, com ativos eficazes e bem tolerados.
Há situações em que tratamentos orais são necessários, como antibióticos e, em casos mais resistentes, até a isotretinoína. Mas esses são passos que só fazem sentido quando existe critério, indicação e acompanhamento.
Na dermatite periorificial, a pele raramente melhora quando é tratada sem lógica clínica.
E, curiosamente, quem tem acesso a tudo, muitas vezes, precisa exatamente do oposto: mais critério, mais tempo e menos intervenções.