
Quando tudo é tendência, autenticidade vira diferencial
11 de agosto de 2026Outro dia eu estava ouvindo rádio. Sim, rádio.
Como faço quase tudo a pé, normalmente caminho no silêncio dos meus pensamentos ou ouvindo alguma playlist. Em ambos os casos, existe algo em comum: sou eu quem escolhe o que vou ouvir.
Até que, naquele dia, tocou uma música de que gostei muito e que provavelmente jamais apareceria nas recomendações do meu streaming.
Uma situação absolutamente banal, mas que me fez pensar: quando foi que paramos de ser surpreendidos pelo que não escolhemos?
Veja aqui o vídeo que publiquei no Instagram sobre esse assunto:
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Estamos vivendo dentro de rotinas cada vez mais previsíveis
Hoje, boa parte da nossa vida é construída para reduzir o inesperado.
O streaming sugere músicas parecidas com aquelas que já ouvimos. As redes sociais mostram conteúdos baseados no que já despertou nosso interesse. O aplicativo calcula o melhor caminho. A agenda organiza nossos compromissos.
Parece liberdade de escolha. E, em muitos aspectos, é.
Mas existe também um efeito menos óbvio: passamos cada vez mais tempo dentro de uma realidade construída a partir daquilo que já conhecemos.
Escolhemos, antecipamos, organizamos e otimizamos praticamente tudo.
E, quando essa lógica ultrapassa a tecnologia, começamos a tentar fazer o mesmo com a própria vida.
Quando a necessidade de controle não deixa a mente descansar
Existe uma diferença entre ter uma rotina organizada e sentir que precisamos antecipar cada próximo passo.
Quando a mente permanece constantemente ocupada com o que vem depois, fica mais difícil realmente desacelerar.
E o corpo também responde a essa tensão.
No consultório, vejo isso aparecer em relatos de ansiedade, tensão e até bruxismo. Muitas vezes, não existe um único grande acontecimento por trás do desconforto, mas um cotidiano inteiro vivido em estado de alerta.
A sensação de que sempre existe alguma coisa para resolver, melhorar, acompanhar ou controlar também cansa.
Nem tudo na vida precisa ser otimizado
Talvez a resposta não esteja em criar mais uma rotina perfeita para aprender a relaxar.
Pode estar justamente no contrário.
Ouvir uma música que você não escolheu. Fazer um caminho diferente. Ter uma conversa sem olhar para o relógio. Fazer alguma coisa simplesmente porque teve vontade, sem transformar a experiência em produtividade.
São pequenas situações, mas elas devolvem algo que nossas rotinas excessivamente planejadas têm deixado de lado: o espaço para o acaso.
Não se trata de abandonar organização ou planejamento.
Trata-se de perceber que uma vida completamente otimizada também pode se tornar uma vida completamente previsível.
Aquela música no rádio não mudou a minha vida.
Mas me lembrou de uma coisa importante: nem tudo que pode nos fazer bem precisa ter sido escolhido, planejado ou recomendado por um algoritmo.
Às vezes, o que precisamos não é de mais controle.
É permitir que algumas coisas simplesmente aconteçam.
Quando foi a última vez que você saiu do automático e alguma coisa fora dos seus planos te surpreendeu de um jeito bom?




