
Existe uma ideia que vem ganhando força: a de que hoje somos livres para escolher como envelhecer. Mas será mesmo?
“Essa pressão para parecer jovem simplesmente não me pertence.” Essa é uma frase da Maria Fernanda Cândido, há uma entrevista há algumas semanas para revista ELLE.
Mas ela também levanta um questionamento: será que escolher como envelhecer é igualmente acessível para todas?
Ou será que até o “não intervir” virou uma nova forma de cobrança?
Vivemos uma era em que envelhecer deixou de ser apenas um processo biológico. Tornou-se uma experiência pública, comparada, analisada e julgada em tempo real.
Assista aqui o vídeo que publiquei no Instagram sobre esse assunto:
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Nossa geração é a mais exposta à própria imagem em toda a história.
Nunca nos vimos tanto, tão de perto e por tanto tempo. Selfies, vídeos, reuniões online, redes sociais. Quanto mais nos observamos, menor tende a ser a tolerância às pequenas mudanças naturais do rosto. Uma linha vira problema.
Uma sombra vira defeito. Um traço vira algo a ser “corrigido”.
Some-se a isso uma indústria multimilionária que lucra diretamente da insatisfação feminina, e envelhecer passa a ser tratado como falha, não como travessia.
O problema não é o acesso aos tratamentos. É o contexto em que esse acesso acontece.
Na medicina, aprendemos cedo que analisar um detalhe fora do contexto leva ao erro diagnóstico.
É preciso afastar o olhar para entender o todo.
Mas, paradoxalmente, o que vemos hoje na prática estética é o oposto: linhas isoladas, áreas fragmentadas, milímetros corrigidos.
Passamos a tratar recortes.
Pixels.
E não pessoas.
Quando o rosto é analisado sob zoom constante, qualquer variação vira defeito. E isso alimenta um ciclo de insatisfação que não se resolve com mais intervenção, mas com mais critério.
Criou-se uma dicotomia perigosa:
ou você “não faz nada” e é exaltada por isso,
ou você cuida da pele e passa a ser vista como exagerada.
Mas essa oposição é falsa. Cuidar da pele não é apagar histórias. Não é neutralizar traços. Não é buscar juventude eterna.
É respeitar estrutura, identidade e tempo. É buscar viço, saúde e equilíbrio. É querer se sentir bem, não diferente de quem se é.
Não é sobre parecer mais jovem. É sobre parecer você, bem cuidada. Envelhecer nunca foi o problema. O problema é atravessar esse processo sob comparação permanente.
E para você, o que pesa mais hoje: o tempo ou o excesso de comparação?