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Cosmético caro é sinônimo de produto eficiente?

Será que cosmético caro é sinônimo de um produto eficiente?

Quanto você está disposta a investir em um produto de skincare? E, principalmente, o que espera receber em troca desse investimento?
O mercado de beleza oferece produtos de diferentes faixas de preço, desde fórmulas acessíveis até cosméticos de luxo que custam centenas ou milhares de reais.
Em muitos casos, o valor reflete investimentos em pesquisa, desenvolvimento, tecnologia e qualidade dos ingredientes. Mas também inclui embalagem, fragrância, posicionamento de marca e publicidade.
Isso significa que um produto caro pode ter uma excelente formulação, mas seu preço não é uma medida direta de eficácia. Um sérum de R$ 500 não será necessariamente mais adequado à sua pele do que outro de R$ 50.
Na dermatologia, a escolha de um produto depende de fatores que vão muito além do valor estampado na etiqueta. Precisamos considerar sua composição, as evidências científicas disponíveis, a condição que desejamos tratar e a resposta individual da pele.
É nesse contexto que vale compreender uma diferença importante: o papel dos cosméticos e dos medicamentos dermatológicos.
Veja aqui o conteúdo que publiquei no Instagram sobre esse assunto:

Cosméticos, dermocosméticos e medicamentos: o que muda na prática?

No Brasil, a Anvisa estabelece critérios regulatórios diferentes para cosméticos e medicamentos, considerando suas finalidades, indicações e alegações de eficácia.
Os cosméticos podem oferecer benefícios importantes, como hidratação, proteção da barreira cutânea, melhora da textura, controle da oleosidade e auxílio no cuidado com alterações de pigmentação.
Já os medicamentos são avaliados para indicações terapêuticas específicas, como o tratamento da acne, do melasma e de outras condições dermatológicas.
Um detalhe que costuma gerar confusão é o termo dermocosmético. Embora seja amplamente utilizado pelo mercado para identificar produtos com ativos específicos ou desenvolvimento voltado ao cuidado dermatológico, ele não constitui uma categoria regulatória independente na Anvisa.
Esses produtos continuam sujeitos às regras aplicáveis aos cosméticos.
Isso não significa que todos os cosméticos tenham a mesma eficácia ou que não existam diferenças importantes entre suas formulações. Significa que o preço e a denominação comercial não alteram, por si só, o enquadramento regulatório do produto.
Também é interessante observar que alguns dos ativos mais estudados da dermatologia não são necessariamente aqueles que recebem maior destaque nas campanhas publicitárias.
Tretinoína, adapaleno, ácido azelaico e hidroquinona são exemplos de substâncias com aplicações terapêuticas bem estabelecidas.
Dependendo da indicação, medicamentos que contêm esses ativos podem oferecer benefícios que um cosmético isolado não conseguiria substituir.
Mas isso não torna os cosméticos dispensáveis. Na prática, medicamentos e cosméticos frequentemente desempenham funções complementares dentro de uma mesma rotina.

O que a ciência nos mostra sobre os principais ativos de skincare?

Para entender por que a indicação é tão importante, podemos observar alguns dos ativos mais conhecidos nas rotinas de cuidados com a pele.
  • Ácidos esfoliantes e retinoides no tratamento da acne
Os alfa-hidroxiácidos (AHA) e beta-hidroxiácidos (BHA) são utilizados para melhorar a textura da pele, favorecer a esfoliação e auxiliar na desobstrução dos poros.
Eles podem ser úteis em determinadas rotinas, mas não substituem necessariamente tratamentos medicamentosos para a acne.
Retinoides como a tretinoína e o adapaleno possuem evidências clínicas consistentes e são utilizados em diferentes situações, especialmente no tratamento da acne comedoniana.
A escolha depende do tipo de acne, da tolerância cutânea e das necessidades de cada paciente.
  • Niacinamida e ácido azelaico
A niacinamida é conhecida por seus benefícios à barreira cutânea, ao controle da oleosidade e a alguns processos inflamatórios.
O ácido azelaico, por sua vez, possui aplicações terapêuticas no tratamento da acne, da rosácea e de determinadas alterações de pigmentação.
Esses ativos não precisam ser vistos como concorrentes. Em algumas rotinas, a niacinamida pode complementar o uso de medicamentos tópicos, contribuindo para o conforto e a tolerabilidade da pele.
  • Thiamidol e hidroquinona no tratamento das manchas
O Thiamidol é um ativo cosmético que possui estudos demonstrando benefícios no clareamento de alterações de pigmentação.
A hidroquinona é um medicamento utilizado há décadas no tratamento de determinadas manchas, incluindo o melasma, e exige cuidados específicos quanto à indicação, à concentração e ao tempo de uso.
A escolha entre essas possibilidades depende do diagnóstico, da intensidade da pigmentação, da sensibilidade da pele e da estratégia de manutenção.
Vitamina C e proteção antioxidante
O ácido L-ascórbico, forma pura da vitamina C, possui ação antioxidante bem documentada e pode complementar os cuidados com o fotoenvelhecimento e a fotoproteção.
Entretanto, nem todas as formulações com vitamina C apresentam o mesmo desempenho. Existem derivados com características distintas de estabilidade, absorção e evidência clínica.
Além disso, a vitamina C não é indispensável em todas as rotinas. Sua inclusão deve fazer sentido diante das necessidades da pele e dos demais produtos utilizados.
Esses exemplos mostram que a qualidade de uma rotina não depende de reunir o maior número possível de ativos. Depende de compreender a função de cada um e avaliar se sua combinação oferece benefícios reais.

Uma rotina sofisticada que realmente funciona para a sua pele começa pela indicação correta

Se existem medicamentos com evidências científicas tão consistentes, por que não utilizá-los em todas as rotinas?
Porque a eficácia de um tratamento também depende da capacidade da pele de tolerá-lo.
Uma paciente com rosácea, sensibilidade ou barreira cutânea comprometida pode precisar de uma abordagem mais gradual, com hidratantes e outros produtos de suporte antes ou durante a introdução de determinados medicamentos.
Uma fórmula potente pode ser excelente para uma pessoa e provocar irritação excessiva em outra. Se o desconforto compromete a continuidade do tratamento, precisamos rever a estratégia.
É por isso que não gosto de pensar em skincare como uma coleção de produtos.
Durante a consulta, considero a condição da pele, os tratamentos anteriores, os produtos que já fazem parte da rotina e a possibilidade de combinar diferentes ativos com segurança.
Às vezes, a melhor decisão é introduzir um medicamento. Em outras situações, retirar etapas desnecessárias ou substituir produtos pode ser igualmente importante.
Uma rotina cara também pode ser uma rotina mal indicada. É possível utilizar um sérum de luxo, diferentes ácidos e um hidratante sofisticado sem tratar adequadamente a principal queixa da paciente. Além disso, a associação indiscriminada de ativos pode provocar sensibilização e comprometer a barreira cutânea.
Antes de comprar mais um produto, considero interessante refletir sobre três questões: o que exatamente você deseja tratar, se os produtos que já utiliza cumprem essa função e se existem evidências de que o novo ativo acrescentará algum benefício à sua rotina.
Essas perguntas ajudam a construir escolhas mais conscientes, sem transformar o cuidado com a pele em uma sequência interminável de compras.
Para mim, uma rotina sofisticada é aquela em que cada produto tem uma razão para estar presente.
Ela pode incluir um cosmético de alto valor, um medicamento acessível ou uma fórmula manipulada. Pode ter apenas algumas etapas ou exigir cuidados adicionais, dependendo da condição dermatológica.
O importante é que as escolhas sejam fundamentadas, que os produtos sejam compatíveis entre si e que a paciente consiga manter os cuidados ao longo do tempo.
Na dermatologia, sofisticação tem muito mais relação com precisão do que com preço.
Uma rotina bem construída respeita a biologia da pele, considera as evidências científicas e se adapta à vida de quem a utiliza.

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