
No último ano, o retinal (retinaldeído) se tornou um dos ativos mais comentados da dermatologia.
Frequentemente apresentado como uma alternativa capaz de unir a potência da tretinoína à tolerabilidade do retinol, ele rapidamente passou a ocupar espaço de destaque em campanhas publicitárias, redes sociais e rotinas de skincare.
Mas será que a literatura científica sustenta todas essas promessas?
Quando analisamos a biologia dos retinoides e os estudos disponíveis, encontramos um cenário mais complexo do que o marketing costuma apresentar.
Veja aqui o conteúdo que eu publiquei no Instagram, sobre esse assunto:
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Existe uma regra básica dentro da família dos retinoides: quanto mais próxima uma molécula estiver do ácido retinoico, maior tende a ser sua atividade biológica na pele.
A sequência segue uma ordem conhecida:
Ésteres de retinila → Retinol → Retinaldeído → Ácido retinoico (tretinoína)
Cada etapa exige uma conversão metabólica para que a molécula alcance sua forma ativa.
Por esse motivo, o retinaldeído costuma ser apresentado como uma evolução do retinol, já que está a apenas uma etapa de distância do ácido retinoico.
No entanto, proximidade metabólica não significa necessariamente equivalência clínica.
Embora o retinaldeído esteja próximo da forma ativa, ele continua dependendo de conversões dentro da pele para exercer seus efeitos.
Além disso, trata-se de uma molécula relativamente instável, sujeita a processos de degradação antes mesmo de atingir seu potencial máximo.
Outro ponto frequentemente ignorado é que a tolerabilidade de um produto não depende apenas do ativo principal, pois ela é resultado da formulação completa.
Veículo, concentração, ativos associados e até características físicas do produto influenciam diretamente a experiência do paciente.
Por isso, promessas simplificadas como “resultado da tretinoína sem irritação” costumam desconsiderar fatores fundamentais da prática clínica.
Quando avaliamos a literatura científica, encontramos uma limitação importante: ainda existem poucos estudos robustos comparando diretamente retinaldeído, retinol e ácido retinoico.
As evidências para condições como acne, melasma e fotoenvelhecimento também permanecem mais limitadas quando comparadas àquelas disponíveis para a tretinoína.
O estudo mais frequentemente utilizado para aproximar o retinaldeído da tretinoína foi publicado por Creidi e colaboradores.
Embora ambos os tratamentos tenham apresentado melhora em relação ao estado inicial dos pacientes, o retinaldeído não demonstrou diferença estatisticamente significativa quando comparado ao grupo que utilizou apenas o veículo da fórmula.
Isso não significa que o retinaldeído seja inútil.
Significa apenas que as evidências atuais não permitem concluir que ele seja superior ou equivalente à tretinoína em eficácia clínica.
A discussão entre retinal, retinol e tretinoína não deveria ser guiada por tendências, mas por evidências.
A tretinoína continua sendo considerada o padrão-ouro dos retinoides por possuir o maior volume de dados clínicos disponíveis.
Ao mesmo tempo, isso não significa que todos os pacientes devam utilizá-la da mesma forma.
O sucesso de um tratamento depende de estratégia, individualização e adesão a longo prazo.
Em muitos casos, ajustar a rotina de cuidados, controlar a adaptação inicial da pele e personalizar a formulação pode ser mais importante do que simplesmente escolher o ativo que está em alta no momento.
Na dermatologia, a melhor escolha raramente é a mais popular.
É aquela que funciona para a sua pele e para a sua rotina.