
Das coisas que acho chique: escolher melhor, não ter mais
24 de agosto de 2026Se você foi menina ou adolescente nos anos 2000, talvez se lembre de como a magreza era tratada nas revistas, na televisão e na cultura de celebridades.
Mulheres com corpos perfeitamente saudáveis eram chamadas de “cheinhas”, enquanto dietas extremamente restritivas, exercícios usados como compensação e uma vigilância constante sobre o peso eram frequentemente associados à disciplina e ao cuidado com a aparência.
Kate Winslet é um exemplo emblemático. Quando Titanic estreou, ela tinha apenas 22 anos e passou a ter seu peso constantemente comentado. Anos depois, classificou o tratamento que recebeu naquele período como bullying.
Quase três décadas se passaram.
O discurso mudou, a medicina avançou e temos recursos que não existiam naquela época. Mas uma pergunta permanece: será que a busca pelo corpo “perfeito” realmente desapareceu ou apenas ganhou novas ferramentas?
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O padrão mudou menos do que as ferramentas para alcançá-lo
A barriga chapada e os corpos cada vez mais magros nunca deixaram completamente o imaginário estético.
O que mudou foi a quantidade de recursos disponíveis para chegar até eles.
Hoje, além de dietas, atividade física e cirurgias, temos novas tecnologias, procedimentos e medicamentos capazes de produzir mudanças corporais que, algumas décadas atrás, eram muito mais difíceis de alcançar.
E aqui existe uma distinção fundamental.
As medicações injetáveis utilizadas no controle do peso representam um avanço importante da medicina. Quando existe indicação clínica e acompanhamento adequado, elas têm um papel relevante no tratamento da obesidade e de determinadas condições metabólicas.
A medicação não é a vilã dessa história.
A discussão começa quando uma ferramenta terapêutica passa a responder também à urgência estética de pessoas que não apresentam a mesma necessidade clínica.
A tecnologia evoluiu. Mas talvez nossa pressa para atingir determinado padrão corporal também tenha aumentado.
Emagrecimento, flacidez e o chamado “rosto de Ozempic”
Uma dúvida que aparece com frequência é se essas medicações causam flacidez.
Não é correto estabelecer essa relação de maneira tão direta.
Quando existe uma perda significativa de peso e volume corporal, a flacidez que já existia pode se tornar mais evidente, ou os tecidos podem apresentar alterações enquanto se adaptam à nova composição corporal.
E essa resposta não depende de um único fator.
Idade, genética, quantidade de peso perdido, velocidade do emagrecimento, massa muscular e qualidade da pele também entram nessa equação.
Quando há uma perda importante de peso, especialmente sem o acompanhamento adequado da alimentação e da composição corporal, também pode ocorrer redução de massa magra e de compartimentos de gordura que participam do volume e da sustentação facial.
Daí surgem alterações que popularmente passaram a ser chamadas de “rosto de Ozempic”: aparência mais cansada, olhar encovado, perda de volume, mudanças nos contornos, flacidez mais evidente e redução do viço.
O próprio nome, porém, pode induzir ao erro.
Essas alterações estão mais relacionadas à perda significativa de peso e volume facial do que a um efeito exclusivo de uma determinada medicação.
Emagrecer bem envolve muito mais do que diminuir o número da balança
Quando existe indicação para perda de peso, o objetivo não deveria ser simplesmente chegar ao menor número possível no menor intervalo de tempo.
O corpo inteiro está atravessando uma mudança.
Preservar massa muscular, manter uma alimentação adequada, praticar atividade física e acompanhar a saúde da pele também fazem parte desse processo.
É nesse contexto que a dermatologia pode participar de um planejamento mais amplo.
Não para chegar ao final do emagrecimento e “corrigir os estragos”, mas para acompanhar como a pele e os tecidos respondem às mudanças e, quando houver indicação, trabalhar qualidade cutânea, estímulo de colágeno, flacidez e alterações de volume facial.
O planejamento muda quando o objetivo deixa de ser apenas emagrecer e passa a ser atravessar essa transformação preservando saúde e naturalidade.
Talvez a questão mais importante dessa conversa não seja qual medicamento, tecnologia ou procedimento temos disponível hoje.
É entender por que ainda existe tanta urgência em alcançar determinado corpo.
As ferramentas mudaram muito desde os anos 2000. Mas isso não significa que estejamos completamente livres dos padrões que fizeram mulheres perfeitamente saudáveis acreditarem que precisavam ser menores.
Um resultado mais rápido não é necessariamente um resultado melhor.
E estar mais magra, isoladamente, não nos diz tudo sobre saúde, composição corporal, qualidade da pele ou bem-estar.
Cuidar do corpo também significa respeitar a maneira como ele atravessa uma mudança.




